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Memnon, Colossos de Amenhotep 1360 a.C- em 1999 ®copyright osdomeio.blogspot.com ™

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Devias estar hoje no Cairo 
– escreveste-me. ( e nos media a foto .
 
 Não dormi voltei ao Cairo)



(Os carros não pararam de apitar: olha que aqui vou eu, olha que vou passar! Ana Hunã! Sebni afoot awem!)


Masr Omm Eddónia
 Egipto Mãe do Mundo


Desde aqueles dias só doença e doença desta mãe, funeral atrás de funeral .
Disse-me a minha sogra que não pôde deitar fora nem olhar guardados os  vestidos de organza, de seda e de rendas. Contou:  o de organza verde-água no Palácio do Nilo a ouvir   a Koulsum,....,  tremia em silêncio pela voz dela acima e saltávamos os dois nas explosões dos aplausos em pé. Cinzeiros de prata por todo o lado. 
Dos vestidos fez pequenas  toalhas de mesa e napperons delicados onde pousávamos os copos de karkadê, ao fim da tarde. Vinho Douro, tinha o meu.

Hoje, eu fugiria já para o Museu. Na própria manhã. Lá dentro, subir a escadaria majestática bem no meio, sapatos calados. A subir e a cheirar os effluvia da mãe. Doces. Devagar, devagar, andar, andar, evitando Tutankhamon. Ir à procura dos bancos de madeira altos, aí nessa sala à esquerda. Sentar lá. Pousar os braços e a cabeça na vitrine das jóias debruada em fina madeira escura e deixar-me adormecer. Repousar ali naquela memória nossa. A ampliar-se em mim.

De cada vez que lá voltava, .... o Cairo morria e morria, na parte visível.
A Maysarah: este ano não nado contigo, ana. O meu marido já é CEO. Tomámos o pequeno almoço, no hotel – o melhor pão do mundo, queijo fresco com pontinhos de mel. Yogurt de Goiaba verdadeiro-verdadeiro, (Nham,nham,..). Café forte para o dia. E o teu foulard Hermès azul e dourado, a emoldurar os óculos Herrera. Discretos, não achas? -Sim. Não ríamos.

Quando acordasse podia ir para a rua olhar cá de baixo as persianas fechadas das casas e adivinhar por detrás os homens lindíssimos de pernas fortes que lá estarão  e mulheres como a Dalidá, de olhos-íman, o movimento fascinante das mãos a sublinhar a fala, elas brilhantes, repousadas. Levantam-se e separam-se. Vão rezar. Depois saem à rua todos cobertos a mostrar que não são pobres e a mostrar aos pobres que é bom cobrir-se. Aquele par, que vejo depois à noite,  num reservado do Sequoïa, o criado a retirar-lhes o chapéu e o sobretudo, o véu purdah e as demais vestes. Tudo preto. Um fabuloso colo, o decote pela cintura, seda, linho e tule, corte em viés, leve o drapeado. A pele maravilhosa, interrompida pelas unhas escarlates a agarrarem o colar.

No ano seguinte a Maysarah  contou das risadas sem fim nos jantares vespertinos de Novembro e de quando mandaram acordar às duas da manhã  estilista e modista da casa Saint Laurent para virem enfim fazer as provas... sem maquilhagem as francesas, aquele cabelo fininho estremunhado....

Antes da noite ia procurar a gente do Messiah - empurrados, empurrados(!!!), cercados no Cairo próprio, ..., - aqueles de sorriso largo,  que nos tocam e pousam a mão no peito deles. Rezo sim. Como o Pão.

À chegada o meu sobrinho enfiou a mão dentro da manga para me cumprimentar.

Convidá-los para a Mesquita de Lisboa . A verem. Respirar. Sexta-feira, Cumbersa à saída: nh’ãrmon! – menina  bonita, komé? Grandes foulards histéricos sobre a cabeça. Colos generosíssimos. Noz de cola e caju. Rostos abertos. RDP África a tocar na secretaria. 
Dizer-lhes que no português tem também esse insulto igual-igual:  cães infiéis, já ninguém diz (?!)... A bota a partir a menina pelo diafragma. Não se consegue agora olhar para outro lado. A imagem, o movimento dele com a bota a partir a menina pelo diafragma .  Kalb....

Na mercearia uma mulher apertou-me suavemente o braço com a luva preta. Abraça-me. A mais nova traduziu em inglês. Está tudo partido, não olhe, não olhe. É melhor ficar em casa. Na casa, tudo está. Temos até dr. Phill! E riu-se muito agora, os olhos baixos. Gosta do dr. Phill? Dentro de casa. 
Casa-tudo-afinal. After-all, At all, In the end? Em necessidade, ela transita para fora. Vai connosco. Assim-Longe. Outside- Barra -Away. 

A casa. Baît. De repente ficamos janelas. A casa cá dentro, fora de casa. Quero ir. Baît.

A bailarina no clube, olhou para os músicos, depois profundamente para as senhoras a pedir licença,  avisou, vai começar. Dançou para elas, virada toda para os homens. Os homens nas mesas.
Abanei a bunda sem ninguém ver. Não dá. É ao contrário. Este balanço é completamente vertical. Não consigo que chatice. Logo se vê.
Os homens nas mesas. Tomaram mais mulheres para terem mais mundo. Na primavera compram colares de fool, jasmim, que põem nos colos das suas
- Habibi !!!
Tomaram mais mulheres e afinal, o mundo a ir, a ir, a ir e eles ali . 

Horas e horas na cama quente de barriga para baixo a ver passar e passar a margem hipnótica do Nilo.  
Um bocadinho de coração sozinho ficou no templo de Komombo.

Chegar a Lisboa no conforto da Egyptair - “chegámos, graças a Deus!” , “ Wecelna Bessalamat ELLAH!”  -  e ter a coragem de aquecer num instante uma casa fria.

Branca Clara das Neves
Heliópolis, 2011