Aqui à tua mesa


LUTO



Voaste sem adeus como se tudo ficasse dito. E nós. Aqui à tua mesa. Tontos. Sem pele. Condenados a horizontes uns dos outros.

Estarrecidos. Querer matar este deus.
Salvar. Pôr as mãos sobre os corações. Muito tempo.
Apavorados. Sem pele. Para já horizontes imediatos uns dos outros.

Calados, a dizer todas as palavras. Ouvir que é assim. Tratar das coisas. A receber pessoas. Tenta-se um texto, outro e outro: nem o perfil assoma. As fotografias, o fb: nada lhe pode chamar.
Parados, sem conseguir rezar.

Quem já cegou assim que fique agora a indicar a luz. Nós não. Nós é que não.

Quem não enlouqueceu?
Ainda.

τ

Há uns dias vi Francelos de relance, e cheguei depois à solidez do Porto.
Há uma tristeza familiar no Porto. Não te falei disso. Mas ao telefone, refilámos da nossa geração,  parece ainda agora.

Tu disseste:
- “ muito tempo longe do real que nos caiu de repente em cima com estrondo,...”
(começar agora por aqui?) 

Mas demorou muito mais do que o teu momento de Passagem: tsunami sem onda.
(não era agora - disse o Francisco)


τ


Se tudo é pouco para te celebrar, comecemos pelo que celebravas. A 125 azul,..., Kurikutela,...Adolphe Johannes Brand-Dollar Brand- Abdullah Ibraim, ... sabemos, sim.
Sabemos também que o Hás-de não será o Hades. Dizias.

Havia muita tinta na Caneta e Voz e muito Sopro também, mas o Tempo acabou na mesma. Que faremos?

- Perguntai! Foi o que disse a Maria.

Consintamos então em ser entornados outra vez para a Vida. Na Vida. O estado do irremediável relativo: que nos deixa voltar a fazer, emendar, repetir, fazer diferente, mudar.

A nossa Vida.  Inédita. Como as famílias que herdámos. Com as famílias que fizemos.


Religados.


E atónitos um dia nos cabelos e nos dedos dos teus mais novos.



Luto do Albino, o pai da Luana
São Brás de Alportel
2011