Saem depressa do elevador, elas, como uma nuvem de som e de cor.
Falam todas ao mesmo tempo, pronúncias cruzadas entendem-se bem.
Chegam aceleradas. Devolvo-lhes os sacos.
- Agora é fácil, de noite falo no telefone do computador logo que o Djosa sai, ali mesmo na cozinha,
- ... banca seca próp, p’água ca ta entra.
A mais alta, endireita-se, toma balanço e de pescoço encolhido começa a correr nas pontas dos pés. Alguém lhe abre a porta.
- Sta friio, lá fora!
Uma pára, o joelho levantado a fazer um gesto na saia:
- O lençol de bordado tão perfeitinho, assim: a dobra a cair.
- Na Ucrânia tem bom linho, mesmo bom, sabes?
Outra vira-se para trás:
- Sabes matizar?
Vão. Um cheiro misto de lixívia e de suor.
Ainda lhes ouço:
- ... Adê! hora di bai, ...
Cruzam-se com os bancários que entram em passo lento.
Estes cheiram mesmo demais. Perfumes do Natal. Há um de casaco pelas costas, as chaves e a carteira na mão. Não me respondem. Tá certo. Este bom dia pode interromper o último processamento em liberdade. Vão entrando mais. Os olhos longe. Uns banhados de Tejo, outros de Mulher, outros de Alucínio. Não tarda já todos sentados a despedir os sonhos da madrugada.
- Não é que o ipad em cima da secretaria dele tenha alguma coisa a haver,...
- Ele não tem a internet barrada?
- Tem é a cabeça fraca, mas o pai não queria vê-lo de enxada na mão.
Atrás deles vem o contabilista a dobrar energicamente o jornal que depois coloca por debaixo do braço. Como um cavalo ansioso pela partida.
O chefe mais novo chega sempre atrasado. Entra directamente pela garagem.
Disseram-me que vai cumprimentar um a um, com ar solene, como se nada fosse. Quando faço a ronda ainda lá está, sentado à secretária a falar ao telemóvel.
Se alguém me perguntar, eu digo, logo bem sério, que eu aqui não gosto de me rir de qualquer maneira. Muito menos para desviar das coisas que fazem chorar:
-É preciso, é que aqui não se perca o nome. E quanto aos clientes, pelo menos imaginar como serão. É assim.
Lá fora está a fazer-se um dia lindo que não existe.
Sinto ainda o rasto de vivacidade. Aquelas já perderam o das oito.
Branca C. Das Neves
Back Office das Laranjeiras
