A Casa Côr de Limão







         








Tão cedo ainda!
O cheiro da terra nasceu verde-verde assim. Não choveu nada mas as gotas de orvalho rolam devagar nas folhas. É uma hora tímida. E páro. As coisas que vão fazer a manhã me aparecem em ondas lentas. Que hão-de acontecer..., sim. Me espraio na atmosfera fresca, corro a vestir, já vou aqui na estrada. Meu caminho mesmo no meio dela. Que sossego. Os buracos aqui que não deixam passar os carros. Os galos já se calaram, agora as buzinas tomam conta na estrada de baixo, essa aí, paralela, não tem buracos, sai directa no aeroporto. Meu passo ganha ritmo no ar limpo-limpo, a manhã a se abrir clara-clara.

Vamos.

Passa uma bicicleta empurrada nas duas mãos. Cheiro de pão. As vozes e os passos enchem a rua.
- Bom dia, bom dia.
Mais bicicletas e campainhas delas. Circulação. Melhor me resguardar aqui no traçado do passeio velho.
- Bom dia!
- Bom dia, obrigado.

Aifamba.

Há que tempos não passo na estrada de baixo, essa que vai directa no  aeroporto, ainda agora falei.
Pronto.
Onde o meu príncipe chegava, ali mesmo no aeroporto. Lhe ia buscar acelerada, velocidade do coração que comandava a viatura. Muito tempo, sim. Passou.
Agora que circulo calma por aqui, só a pé só.

Aifamba.

Chegava lá preparada, batôn novo, perfume antigo, muito antes do avião. Cedo, cedo. Entrava sorrateira antes da segurança a postos. Se deixasse passar as 11,15... (mfx!) havia que esperar fora. O que nunca aconteceu, saibam.
Ali sentada no banco corrido na obscuridade da sala das bagagens, esperava. Calôor!! O tapete rolante estacionado à minha frente até lá ao fuundo... Dali que a pista espreitava no quadrado grande aberto por onde haviam de entrar as malas. O avião que ia estacionar ali mesmo nesse ângulo por onde agora entra a luz. Aí que meus olhos ficam.
E passa o homem da Migração, aprumado seu fardamento. Como está? Bem, obrigada. Sabe que não pode estar aqui. Sei sim camarada,, muito  obrigada.
Era uma cerimónia mensal, corria bem. E me voltava de encostar na parede só num instante a lhe sentir seu fresquinho nas costas. AAhn...e um tempo largo aí a olhar os cartazes da saúde. Que malária. Que HIV. Que camisinha. O chão brilhante. O silêncio quente. Largar os pés das sandálias. Descansar...
Um molhado na pele. Levanto discreta. Lhe estico mais o vestido impecável. Sobretudo não permitir qualquer gota escorrer no engomado. De pé. Uma aragem entre as pernas: aah!..Isso.
Agora o motor do avião.
Chêgou! Anuncia alguém que entra e acende a luz. Logo-logo, esse homem farda azul, passa de empurrar a escada em que tu vais descer. E ao ver cheirar a Terra, vou saber se dormiste bem, se vens animado.

Aifamba.

Me chegam estas lembranças quando estou aqui a chegar perto da Casa. A casa cor do Limão.
Nesta rua onde vou, já se vê ali mesmo a dar na esquina. Assim quadrada, pequena, sem quintal à frente, duas janelas simétricas a porta no meio. E lhe vejo como era antes: todo um desventrado a abrir para fora. Ruína clamosa. Muitos anos de tempo lhe deixaram assim toda partida. Foi um refúgio de meninos. Havia roupa a secar no lugar da porta. Acendiam fogueira à noitinha,  cantavam.
E de repente  lhe vi assim consertada pintada certinha, essa forte cor de limão. Que lhe escolhi de imagem logo essa casa nessa hora, nesse dia. Pronto.

Comecei então minha mania: manhãzinha, sem falta, que ia colocar a caixa. Aí por baixo da janela. Uma caixa devidamente embrulhada firme-firme. Papel lilás recuperado na alfândega. Não pensem parecia prenda, nada, laço não tinha. Se bem que às vezes lhe amarrava, raiva séria, com corda, cordel, fita... cheguei de colar até de farinha d’água . Ás vezes impossível de arranjar, a caixa. Então: Lata. Nido. Leite Moça. Ricoffy. Five Roses.
Mas todos os dias, uma lá. Tinha que ser.
Depois ficava a ver deste lado. Neste chão aqui onde estamos agora. E imaginava a mancha lilás dos embrulhos a crescer e crescer contra o verde amarelo limão. Lhe ia tapar na casa.
Então!? Eu própria que ia deixar esse lilás triste lhe sufocar na cor viva, essa alegria cor de limão? Que não lhe tinha eu mesma já lhe embrulhado firme cada dia? Encomendada embrulhada colocada cada dia aí por baixo da janela?
Me perguntei isto. Assim que fiz. Pronto.

E a DOR foi.

Agradeço à casa que me deixou depositar meus contentores sem devolver nenhum.
E podes ver: nenhuma caixa deixou sombra na casa cor do limão.
Por isso que vou aqui assim leve agora, os braços soltos a ajudarem os pés a caminhar, manhã crescida. Meu dentro irmão do fora.

Aifamba.



Branca Clara das Neves
MAPUTO
1996