É aqui. Depois do arco, a porta de ferro. Aberta, lá!
Aquela Mãe ali sentada tem os bilhetes.
- É quanto?
- Cem escudos.
- Sinto muito o calor nas costas. Incomoda-me este ar amarelado. Já não ouço os meninos lá no portão, não ouço nada. O ar parece limpo, mas há estas nuvens de pó transparente que passam rentinho ao chão,...
- Agora calamos, sim? Devagar. Ouve o silêncio e repara: há uma fronteira para passar que os olhos não mostram.
Lá vêm aqueles dois homens a caminhar pelo espaço do presídio. Contornam os pavilhões de telhado inclinado, os passos no compasso vagaroso do pisar do cascalho. Olha só lá o mais novo, parece que fala, mexe o braço de repente, inclina-se, depois balança o outro, já viu?! Agitado, sem uma palavra! Agora aponta. Encosta-se à parede e olha para o chão. Respira forte. O mais velho não lhe presta atenção. Com as mãos nos bolsos, demora o olhar em cada árvore do pátio.
-Então, foi aqui que eles estiveram: os dos trinta e os dos sessenta. E uma vez, um preso sozinho. Em 1954. Foi o que li.
Estiveram aqui soldados?
- Sim, depois da independência, uns tempos. Vê-se bem. Agora vamos entrar.
- Este peso, que não se vê. Aflitivo!
- Sim. O espaço está vazio. O lugar não.
- Jacinto, Vicente, Joaquim, Faustino e Bento! Paulino, Zacarias, Fogaça, Barbosa e Herculano! Cruz, Simão, Bandeira,
- Podes parar de ler alto por favor?
- Há nomes que dizes e não estão aqui escritos. Olha! Vês ali? Vês ali? Uma mancha na parede, parece um homem agachado, ...? A desenhar letras no chão....
É porque não sabia ler ainda, jovem! Encosta a cabeça à parede. Vá, encosta!
- Vou lá fora, ver o outro pavilhão. É melhor saíres também, não achas?
- Fico. Não queres tu, ouvir agora?
( ) Deram-me o chá dos coentros que cresciam por aí e por isso não
morri
( ) Algumas boas famílias cresceram fartas escoradas nestas grades
( ) Estávamos todos presos mas vocês eram os reclusos
( ) Se tivesse uma faca, apertava-lhe bem no cabo e corria, corria
direito a ti!
( ) Verguei-o! Verguei-o sozinho, e falou! Fui eu, lembras-te?
( ) Eu dei, já. Agora pagam.
( ) Nunca mais te quero ver, para não lembrar
( ) Homens fortes, juntos-na-luta, juntos-e-firmes, a tecermos
futuros...
( ) Saíamos de nós para a Luta. Nós éramos Ela.
( ) Para além das grades as Pátrias Dilatadas ... que fizeste?
( ) As armas e as pedras vermelhas
( ) Vejo-te de braços caídos a escorrer a rude sobriedade pelo
colarinho abaixo. Esbirro!
( ) Eras o meu camba, meu avilo, meu irmão, para onde foste?
( ) Eras tu o que tinhas a cor do Outro
( ) Só te vejo no jornal e na televisão. Nós os dois sabíamos o que ia ser. Éramos capazes de ler com os olhos da pele. Encostados no silêncio, Só respirávamos bem, antes que o sol chegar.
( ) Fazem da memória ideologia e põem-na a render
( ) Pisam o chão sagrado. Retalham-no como viram-antes-fazer
( ) Desenham as conjuras com a eloquência da vitória eterna
( ) Chovem-nos mitos irremediavelmente vacinados
( ) Que ninguém fale das sentinelas obedientes e do que fizeram
depois.
( ) Bateste-me. E o tecto cresceu para cima de mim
- Então, sais ou não? Gente há – muito viva ainda – que nunca saiu daqui.
- Sim, vou. Há a aridez e o silêncio. Ficou frio.
- Alguns transformaram a sanha em Pão. Foram descobrindo os outros cheiros de Pessoa.
Olha a sombra daquelas três árvores, vês lá?
Quem sabe foi ela que lhe adormeceu para poder escrever... Agora quando fala, a boca dele pára um bocadinho, e os olhos chamam as palavras que escondem o desânimo e puxam para a Luz.
- Estes meninos estão a pedir água.
- Não pediram água ao ministro quando ele cá veio. E deram-lhe um balaio com cimbrom.
- Adeus, Mãe.
- Onde vais tu agora?
- Continuar a ler. E tu?
- Descansar no mar. Bem sabes que não tenho ninguém com quem falar do Luandino.
Branca Clara das Neves
Tarrafal
