Zé da
Guiné - Lisboa
Obituário
Politico não foi - não fez filmes - também livros não.
Nascido em Biombo-Bissau, mas de Bissaus e Lisboas muitos,
Zé-NH’Pótica, foi ele mesmo.
Com os filhos, com os conhecidos, com os
desconhecidos passantes. Com a gente do mesmo tempo.
Fez chão.
Chegou a Lisboa talvez depois do
preto-da-guiné-lava-a-cara-com-café.
O nome logo ali a frente Zé da Guiné, sem quês. O nome arrumava
a coisa de uma vez, para poder virar a sua luz ao espírito do tempo.
Lá dentro dele a história viva calada: o fanado real e o
carnaval de 70, logo a seguir a
fuga para o mato com os companheiros,
os combates.
Só o corpo que falava essa história. Seu santo lhe desceu
primeiro em dança, luta, boxe e karaté.
Esse corpo nos irradiando movimento e harmonia.
De repente chegou o vento
que leva as orelhas, como se chamava na Guiné aos imponderáveis da vida.
E a sua flexibilidade Pépel dobrou para uma bengala e depois fechou-se
numa cadeira e depois ficou presa na cama. Muito tempo. Cuidadores cuidaram. A
palavra torce a língua e vem lá longe, borbulhando no oxigénio surdo. E traduzia quem conseguia ouvir.
Mas ali pouco antes nos Restauradores de pé obrigando o corpo a
responder ainda bamboleando os músculos à vez, sua conversa:
Os meninos
não os estão a deixar saber, na
escola e na televisão a cegar, não vão saber ler. As Áfricas. Ainda o desperdício.
Se se soubesse uma palavra em Português para designar
“aquele que lida vivaz com a vida”
dizíamos. Se se fosse capaz de ouvir uma só língua Bantu a
fundo, escrevíamos.
Assim fica só combatente. Mas com os todas as
vogais abertas.
O negro grande e belo e vivaz que se fez sozinho cidadão de
Lisboa, obedecendo a uma remota linhagem sua.
De Chão Papel. De Tchon Pépel. Fértil demais.
Para o tempo.
Branca Clara das Neves
1º de Novembro
1º de Novembro