... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. .. .. .. .. .. .. .. .. . . . . . . . . . . . . . . . falas do trânsito
- Dá licença, eu tenho documento
A poeirada turva os olhos mas não tapa a fronteira
- Mostra então sua licença!
A multidão estancada ali no sítio da árvore Tacula que
tem as raízes dos dois lados
xxx fronteira xxx
Dum lado,
pessoas-porta de um azul sem discussão
E do outro,
pessoas-porta de um verde sem
discussão
Motores. Filas de Camiões. Kewesekis de escape podre.
Sacos em pé. Cangulos. Bebés
Dum lado,
chóriço - combien? - six mil francs,
aqui terra
E do outro,
gimboa é quanto?
aqui asfalto
Chega um vento aceso de
doçura
aquele que longamente vimos chamando
e com ele aquela senhora.
Lhe damos nome: Bessangana.
Atravessa bidons amarelos, rinocerontes impressos em
plástico, pneus, rapazes com muita carga, trouxas, carvão, as tampas brilhantes
das latas de leite, bagageiros a gritar nas línguas das suas mães, as meninas a
olhar de esperança e medo, a pessoa
que ontem era porta sentado do outro lado, agora vincadamente nas suas calças
kaki.
A Bessangana passa.
Vem de Marte mas não é verde
Os corpos amparam-se no apertão. A bacia estremece na
cabeça. Nada de tocar a vedação. As farpas são lâminas.
xxx fronteira xxx
Dum lado,
vigilância audácia persistência
E do outro,
Bienvenue
No reverso
on vous dit au revoir
O rapaz da keweseki com o volante decorado às fitas de
plástico rijo entrou. Por baixo da lona vai 1 passageiro com escritos numa pasta
“If you come back we will kill you”: Beatings Torture and Denial of Food
Ela passa, visita.
Largou quindas, quitandeiras,
a sombra da Mulemba
toda a quietude suave dessas
mães imaginárias
Caminha com a força de peito
das zungueiras
talvez traga o tempo largo
A pessoa-boss lança os olhos cobiçosos sobre árvore Tacula:
x
quantos metros
de madeira x quantas mesas x quantos quilos de prensado.
Ela passa, visita, transmigra.
A Bessangana não é pós-nada é
o que sempre foi
o vento futuro que deixámos
de muximar
e chamámos
Atravessa aquele fuka fuka como se não fosse
undocumented. Se calhar também vai só ver o tio.
A Bessangana passa, visita,
transmigra, encontra.
Seu pano tem a macieza da
folha
Flui como o ar a água o
sangue e a vida
que nem sempre é verde.
Branca Clara das Neves
Fronteira
LUVU-LUFU
(in
Best “New” African Poets 2018 Anthology, ed. Tendai Mwanaka & Nsah Mala)
Dossiê do Perdão
Olha como a árvore respira ali na pedra. Santa.
Plantas bissapas vermelhas, brancas, verdes. Santas.
O céu ali mesmo, a passar. Santo.
Os pássaros e as lagartixas. Santos.
A atmosfera sustenta-nos de azul e ar e damos caminho à luz.
Definitiva.
Somos muito pequenos.
Recebemos este lugar e matámos aqui. Todos matámos e eles que
morreram.
Podemos sentar hoje e comer as laranjas nossas de longe pousadas
nos cestos reais, nossos de longe. Laranjas Nzeto pousadas nos cestos
Cazombo. Marcas nossas.
Somos muito velhos, custa agradecer.
Recebemos este lugar e matámos aqui.
Agora não dizer que esse dossiê do perdão é lá com Deus.
É connosco mesmo.
Preciso desse ar, da pedra, das bissapas vermelhas, das
lagartixas e dos cãezinhos que viram tudo. Aqui mesmo ao lado.
Passem os pássaros que nos ensinam a passar. Santos. Todos.
Preciso da atmosfera que sustenta. E tu. Ela também tinha dito.
Antes de. Poder respirar lá.
Depois agradecer com os óleos perfumados. Uns aos outros
consentir. Recebe então, sim. Dá então, sim.
Então, fica igual os dois. E a subir de verdade.
O chão sempre. O ar, os meninos, a lagartixa, os pássaros, a
atmosfera que sustenta, a pedra.
Sempre a subir.
Branca Clara das Neves
Lubango
* Sudoeste de Angola, sec XIX-XX. Recolha do Arq. Pancho Guedes em Moçâmedes/ Namibe e Porto Alevxandre /Tombwa c. 1969
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