Dossiê do Perdão
Olha como a árvore respira ali na pedra. Santa.
Plantas bissapas vermelhas, brancas, verdes. Santas.
O céu ali mesmo, a passar. Santo.
Os pássaros e as lagartixas. Santos.
A atmosfera sustenta-nos de azul e ar e damos caminho à luz.
Definitiva.
Somos muito pequenos.
Recebemos este lugar e matámos aqui. Todos matámos e eles que
morreram.
Podemos sentar hoje e comer as laranjas nossas de longe pousadas
nos cestos reais, nossos de longe. Laranjas Nzeto pousadas nos cestos
Cazombo. Marcas nossas.
Somos muito velhos, custa agradecer.
Recebemos este lugar e matámos aqui.
Agora não dizer que esse dossiê do perdão é lá com Deus.
É connosco mesmo.
Preciso desse ar, da pedra, das bissapas vermelhas, das
lagartixas e dos cãezinhos que viram tudo. Aqui mesmo ao lado.
Passem os pássaros que nos ensinam a passar. Santos. Todos.
Preciso da atmosfera que sustenta. E tu. Ela também tinha dito.
Antes de. Poder respirar lá.
Depois agradecer com os óleos perfumados. Uns aos outros
consentir. Recebe então, sim. Dá então, sim.
Então, fica igual os dois. E a subir de verdade.
O chão sempre. O ar, os meninos, a lagartixa, os pássaros, a
atmosfera que sustenta, a pedra.
Sempre a subir.
Branca Clara das Neves
Lubango
* Sudoeste de Angola, sec XIX-XX. Recolha do Arq. Pancho Guedes em Moçâmedes/ Namibe e Porto Alevxandre /Tombwa c. 1969
